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O Sorriso (Im)Perfeito

  • 3 de mai. de 2018
  • 3 min de leitura

Não fui uma criança levada, ainda assim consegui quebrar dois dentes, logo os da frente, em situações diferentes. Na primeira eu brincava com nossa cachorra Laleska. Eu corria pela parte externa da casa, toda revestida por pisos claros, ela vinha atrás de mim, nós duas na maior animação. Até que num momento realizei uma curva perigosa em alta velocidade, ela não acompanhou e nos trombamos. Dei com a cara no chão, direto com a boca no piso. Averiguei minha boca, não estava sangrando, mas algo faltava ali: a metade do meu incisivo lateral esquerdo. Ao ouvir o barulho da queda meus pais vieram me ver, eu não chorava, só mostrei os dentes e eles já entenderam a situação. Meu pai achou a outra metade intacta, ligou para o dentista e nos dirigimos rapidamente para o consultório. Solução? Colar o dente. E assim passei o resto da infância e toda adolescência com um dente remendado.


A segunda ocorrência foi na casa da minha avó paterna. Eu me balançava cada vez mais alto na rede da varanda quando, novamente, caí de cara no chão. E claro, com a boca aberta. Dessa vez lá se foi uma lasca do meu incisivo central direito. Esse pedaço não teve como reaproveitar, estava partido em vários fragmentos desuniformes. A solução só foi realizada quando retornamos à nossa cidade e o dentista colocou uma massinha no lugar.


Desde então meu sorriso nunca foi perfeito. Os dois dentes escureceram, tive que tratar dolorosamente os respectivos canais. Foi realizada uma intervenção estética para que os dentes voltassem a ficar claros, porém nunca ficaram da cor dos naturais. Ao sorrir com luz negra na balada, eu parecia banguela, os dentes mortos não brilhavam como os vivos. O dentista me avisou: “um dia esses dentes podem cair, lá pelos 20 anos você terá que refazer algum procedimento”. Ok! Assim segui até meus 30.


Passei a ter sensibilidade num desses dentes e eles estavam cada vez mais destoantes da coloração dos outros, de forma que entendi ser o momento de restaurar o meu sorriso. E lá fui eu no dentista conveniado do plano de saúde da empresa. Relatei meu histórico odontológico e ele começou a discorrer sobre as possíveis alternativas para o meu caso. O maior problema é que meus dois dentes necessitados de reforma são alternados, há um dente vivo entre eles. Eu de boca aberta e ele a discursar que o ideal seria mexer nos quatro incisivos, ou ainda de canino a canino, para assim deixar todos com mesmos tamanho, cor e alinhamento. Tentei falar não com os olhos, não consegui. Após a clássica cuspida pude me posicionar: Não, só quero mexer nesses dois dentes falhados, os outros estão ótimos. O dentista falante continuou: Mas o seu incisivo central é levemente girado, podemos deixá-lo perfeito. Paciente, expliquei que nunca me incomodei com o leve giro do meu dente central, nem com a manchinha do lateral, muito menos com os caninos irregulares. Não desgastei minha juventude reclamando de meus dentes defeituosos. Ficamos ali um bom tempo nesse educado pingue pongue, e após algumas sutis insistências ele cedeu.


Sentada desconfortavelmente na cadeira eu só pensava: Que mania é essa de buscar a perfeição? O sorriso perfeito, a pele perfeita, nariz, cabelo, corpo, sobrancelha, seios, peitoral. Qual a graça da simetria? Do alinhamento exato? Há defeitos que são qualidades, há falhas que são puro encanto. A beleza se encontra em meio ao caos e às diferenças.


Ao nos despedirmos, conversamos mais um pouco. O dentista sempre olhando diretamente para minha boca, aquela mania de profissional da área. Ao final ele disse: Sabe, não precisa mexer nestes dentes saudáveis mesmo. Perguntei a razão, meio desconfiada. “Não há nada de errado com eles realmente, esse viradinho é inclusive interessante. ” Agradeci e fui embora... sorrindo.



 
 
 

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